Toma conta de mim...
Ana Coaracy
“Toma conta de mim!”. Esta foi a frase que marcou sua vida, apesar de nunca imaginar que seria assim. Hoje sabe, hoje entende exatamente a magnitude daquela frase. Mas, pôxa, ele também tinha de atender seu pedido tão ao pé da letra? Vou explicar tudo.
Ela já estava tonta. Tinha tomado pelo menos uns sete copos de vinho, copos mesmo e não taças. Na verdade, estava irritada. Tinha marcado um encontrou com um possível paquera para aquela noite de Natal e o rapaz simplesmente não apareceu. Somente alguns dias depois ela saberia que o pobre caiu de uma moto e quebrou a perna, passando a noite de Natal no hospital.
Sim, mas ela continuava tonta e tão chateada que não queria parar de beber. Ela queria mesmo era esquecer que existia o Natal. Todo mundo “se dando bem” e ela ali, esperando um fulano que não chegava. Ô raiva!
Já era quase meia-noite e a festa estava animada, pelo menos para os outros. Ela olhava ao redor e no meio de sua tonteira via rostos alegres e ouvia risos, muitos risos e a música, que era animada. Era Natal de 1986, salvo engano. Mas ela estava irritada e queria mesmo era ir para sua casa, dormir e não acordar nunca mais.
Mas lembrou do amigo-invisível. Nossa! Ia acontecer meia-noite e do jeito que estava “entornando” todas, ia passar mal antes da troca de presentes. E agora?
Foi quando ela viu um colega que chegava à festa. Ela nunca tinha olhado direito para aquele cara. Era mais velho que ela e, sinceramente, não fazia seu tipo. Mas como a coisa estava ficando perigosa e a hora da troca de presentes se aproximava, ela foi até o rapaz e pediu: “Toma conta de mim!”. Ela só queria que alguém se responsabilizasse por ela para que não fizesse besteiras na hora do amigo-invisível. Ele sorriu e perguntou o que estava acontecendo.
Ela disse que já havia bebido demais, mas, claro, não explicou sua desilusão e pediu que ele não a deixasse só, porque certamente poderia passar mal.
Tão bonzinho, ele atendeu a seu pedido...
O cavaleiro de armadura e cavalo branco a tomou pela mão e nunca mais deixou de tomar conta dela. No mar verde daqueles olhos, ela mergulhou e não conseguiu sair. No céu azul daquele olhar, ela se embriagou para sempre. Sob aquelas mãos fortes, ela sucumbiu fragilizada. Quando viram, já estavam aos beijos no sofá da sala e até hoje ninguém sabe quem começou.
Depois daquela noite foram muitas idas e vindas. Eles se amaram, se separaram, cada um viveu o que quis. Ele queria filhos, ela queria fazer faculdade. Ele queria morar no interior do estado e ela queria trabalhar na capital. Cada um seguiu seu caminho.
Mas como destino não se escolhe, eles sempre se encontravam no meio da estrada da vida e não sabiam por que não conseguiam se afastar um do outro. E quando ela estava triste, era ele quem tomava conta dela e a alegrava e vice-versa. Quando tudo parecia dar errado, os dois estavam lá, cuidando um do outro até tudo se acertar.
Hoje o destino finalmente os uniu, como se nunca tivessem se afastado e seguido vidas diferentes. Na casa dos dois, deitada ao lado dele, de manhã cedo, antes de começar a rotina de trabalho do dia, ela de repente se lembrou daquela noite de Natal (ô cabecinha que tudo lembra!). Sorriu e perguntou: “Por que tu segues as coisas tão ao pé da letra?”.
Ele não entendeu nada e quis saber do que se tratava. Ela relembrou daquela fatídica noite de Natal da década de 80, e ele sorriu: “Tenho culpa de ser responsável? Estou aqui para tomar conta de ti!”.
Ele a abraçou, os dois se beijaram e foram felizes para sempre...
Ana Coaracy
Jornalista e Blogueira